"Ao sair do quarto ouvi uns sons estranhos vindos da direção da escada"

“Sim, sou moralista e acho um erro gravíssimo o adultério. Cansou? Pede o divórcio e passa pra outra”

por Maricildra Ávilla*

O hóspede L.M. é capixaba e vinha regularmente ao nosso hotel. Todas às vezes trazia a esposa, uma senhora loira “oxigenada” com dois airbags turbinados na frente. Sempre pediam para ficar no último andar, próximo à sala de ginástica. O que um casal faz dentro do quarto não é da conta de ninguém,  muito menos de uma camareira.  O problema é o que fazem fora. Ocorre que naquela noite de sábado tudo fugiu do corriqueiro. Ao fazer a abertura de camas, por volta das 18 horas – período em que geralmente os hóspedes estão fora do hotel ou voltando de suas atividades de trabalho ou lazer – ao sair do quarto ouvi uns sons estranhos vindos da direção da escada. Abri a porta corta-fogo e dei de cara com a esposa do hóspede L.M. transando com o nosso faxineiro, que aqui, por motivos óbvios, chamarei de Azulão.

Ela arregalou os olhos destacando seus cílios postiços e eu, com as pernas bambas, disse um “desculpe’ frouxo e voltei para o corredor, corri para o meu depósito de lençóis e toalhas com o coração na boca e sem saber que atitude tomar.

Ela arregalou os olhos destacando seus cílios postiços e eu, com as pernas bambas, disse um “desculpe’ frouxo e voltei para o corredor

Antes de pensar em falar sobre o ocorrido ao gerente geral, a senhora L.M. veio correndo atrás de mim com a seguinte conversa:

– “Querida Maricildra, você, por favor, não deve ter entendido nada!!”

Olhei para a cara deslavada da senhora L.M. (que não estava deslavada, mas suada) e antes mesmo de concordar que não entendera nada (embora tenha entendido tudo) ela me veio com essa:

– “Te dou mil reais para esquecer o que você viu.”

Olhei para o rosto da criatura. Na casa dos 40 anos, a Sra L.M. ainda quardava ares juvenis, fazia academia e musculação, era forte digamos, em estética, mas doente em caráter. Sim, sou moralista e acho um erro gravíssimo o adultério. Ponto. Cansou? Pede o divórcio e passa pra outra. Conhecia o senhor L.M. e respeitava-o por sua educação, gentileza e fidelidade. Nos cinco anos que trabalhei neste hotel nunca soube de nada que desabonasse esse hóspede, que me dava, inclusive, ótimas gorjetas.

Sentei para me acalmar do lado do carrinho de toalhas sujas. Ela viu que aparentemente me desarmara e sentou ao meu lado e sussurrou no meu ouvido:

“Você é mulher; você vai entender… ‘

“O quê? Mulher chifrar o marido enquanto ele trabalha?” – escapou-me da boca,   com raiva.

“Meu marido tem disfunção erétil está em tratamento … Ele concorda que eu tenha outros relacionamentos”…

Que mulher desaforada! Primeiro tentou me comprar, depois inventou uma desculpa. Respondi:

“Não quero o seu dinheiro e não tenho nada a ver com sua vida. Se a senhora estivesse com o seu marido, tudo bem. Agora, estava fazendo sexo na escadaria do hotel com um funcionário!  Tenho que levar isso à gerência!”. Desci as escadas correndo, nem esperei o elevador. Dei de cara com o faxineiro Azulão que segurava um balde, uma vassoura e assobiava,  contentão da vida…

(Continua na próxima semana)!

*Maricildra Ávilla é ex-camareira e articulista do DH

(As crônicas desta seção são obras de ficção com pequena, média ou grande semelhanças com a vida real) – Acompanhe esta coluna semanalmente no DIÁRIO DOS HOTÉIS.

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